A gripe se arrastou lenta. O corpo mole, a voz pesada. Duas semanas, e entre vitamina C e cama, fui-me recuperando, até já sentir o gosto do mundo, mas ainda não era a mesma coisa de antes. O gosto não é completo quando não vem acompanhado pela capacidade de se perceber o mundo pelo nariz. Respirava limpo e a cabeça já leve. Tudo caminhava para a normalidade enfim.
Naquela noite, fui dormir mais cedo. O corpo dela ao meu lado era um convite a colocar-me novamente à prova. Todos os meus sentidos estavam ali. A sensação única de suas partes mais macias, mais quentes. Em pouco tempo estávamos sem roupa. Beijos, muitos beijos, como sempre. Minha língua percorria caminhos já conhecidos, mas tudo parecia pela metade, o gosto do seu relevo não vinha como antes; já transpirávamos, e a aspereza da minha língua registrava genéricos. Meu cérebro solicitava o ph exato do seu sexo; mas não vinha, e tentava compensar com mais pressão e vontade o meu desejo, alternando, para isso, a velocidade dos meus impulsos. Muito provavelmente, acabaria me virando, se ficasse privado da dádiva de poder colher o cheiro do mundo, aprenderia a caminhar diferente, no sexo e em outras searas da vida. Provavelmente, entretanto, ficaria saudoso de momentos já vividos. Sem os perfumes torna-se impossível devassar as almas.
Arquivado em: Minhas letras | Etiquetado: ficção, narrativa






